O (sub)desenvolvimento nacional de jogos, tributação e a sede Estatal pelo seu dinheiro

Já se perguntou porque mesmo o Brasil sendo um dos maiores consumidores mundiais do mercado de games (ocupando uma vaga entre 15 maiores do mundo, segundo pesquisa feita pelo instituto Newzoo, em 2014), nossa querida Pátria ainda tem preços elevados e ainda somos carentes de grandes estúdios de produção? Pois é, nós também.

O País lidera o mercado dos jogos virtuais na América Latina, gerando um faturamento anual de US$ 1,285 bilhão para o segmento, seguido de México (US$ 997 milhões) e Argentina (R$ 275,5 milhões), levando em conta o mercado de games de maneira geral.

A pesquisa do Instituto Newzoo ainda apontou que ocupamos a 11ª posição, perdendo a vaga no top 10 para a Itália, onde os games geram lucros de US$ 1,442 bilhão. Os Estados Unidos (US$ 21,2 bilhões) lideram o ranking global, dividindo o pódio com a China (US$ 18 bilhões) e o Japão (US$ 12 bilhões). Se vocês tiverem curiosidade de saber o ranking completo, acesse aqui o link direto.

Ainda no ano de 2014, a Ubisoft chegou a afirmar, durante reunião promovida pela Google, que nosso País estaria competindo na 7ª colocação mundial no consumo de games para consoles. Em matéria feita pela site Selecter, que acompanhou o evento patrocinado pelo Google naquele ano, trouxe a impressão do diretor  Bertrand Chaverot, que foi categórico: Vemos o Brasil como 7º lugar em jogos de console (…) No ano passado, notamos que 12 milhões de jogos foram comercializados; Inglaterra, que é a 2º em games consumidos, vendeu 30 milhões de títulos para consoles, então, para dar perspectiva, não estamos muito longe, já que vendemos 12 milhões para uma base de 5 milhões de consoles (…) Para chegar no nível de 30 milhões de games, precisamos vender 15 milhões de console, e isso é algo atingível em três ou quatro anos.

A reunião ainda contou com a presença de Anderson Gracias, presidente da marca PlayStation no país, Francisco Simon, head da Xbox no Brasil, Debora Bonazzi, chefe de mídia e entretenimento do Google e João Coscelli, dono do blog Modo Arcade. O grupo apresentou ainda alguns outros dados coletados no país. “Entre 54 milhões de jogadores, estima-se algo em torno de 8 milhões jogam em console“, apontou Bertrand. “Isso considerando também plataformas de duas gerações atrás”, completou Simon, que vê este modelo de consumo de maneira positiva para o negócio de Xbox: “existe ainda uma possibilidade de crescimento exponencial para o mercado que não necessariamente depende de fatores outros, que não sejam educar o consumidor, mostrar nossos ecossistemas. Só depende da gente”.

Ainda devemos levar em conta a massificação do desenvolvimento para as plataformas mobile, no segmento dos smartphones. As ferramentas de criação e desenvolvimento são, por vezes, gratuitas e instiga a curiosidade até mesmo de leigos interessados em absorver uma pequena fatia desse mercado tão rentável.

Mas, embora tudo isso seja legal e divertido, como fica o Brasil em termos de desenvolvimento e criação nacional de jogos e consoles (ou novas plataformas)?

É uma questão complexa e envolve muito mais do que interesse das empresas. Recentemente tivemos a notícia, que teoricamente deveria ser boa, que a Sony também iniciou a fabricação dos consoles PS4 aqui na famosa Zona “FRANCA” de Manaus. Pois é, caros amigos: se o PS3 mesmo importado já era mais em conta, adivinha o que aconteceu com o PS4: A MESMA COISA.

Você deve estar se perguntado porque diabos estamos falando de consoles numa matéria direcionada a jogos: e nós garantimos, jovem Padwan, tem TUDO a ver.

Anderson Gracias, ainda naquela roda de negócios do Google, aproveitou para comentar que, apesar dos sucessos do Brasil em consumo de jogos, empresas de grande porte “mais têm falado do que feito” algo a respeito de desenvolvimento local. O presidente, entretanto, citou que, dentro do programa de encubadora da Sony Computer Entertainment, o Brasil é a principal fonte de desenvolvedores pequenos e médios na América Latina.

Mas, apesar do esforço empenhado pelas empresas, ainda é mais vantagem importar os consoles do que comprá-los aqui mesmo com as “doletas” nas alturas. E isso se justifica: não só os consoles mas também os jogos tem tributação classificada na sessão de consumo supérfulo .

É bem difícil obter dados em relação ao comércio brasileiro atual focado em jogos novos e usados e até mesmo de venda de consoles, até porque os que não são fantasiosos acabam sendo desatualizados. Mas isso não impede uma análise lógica que pode ser facilmente constatada: desde 2012 os índices de incidência de carga tributária sobre jogos eletronicos variam entre 70% e 75% sobre o preço de venda. Isto porque segundo os parâmetro governamentais eles são tidos como fúteis, de azar ou desnecessários (se você está relembrando do movimento Jogo Justo e a Lei de incentivo que enquadravam games como cultura, aguarde. Temos uma matéria especial direcionada a estes temas).

A  incidência tributária sobre jogos eletrônicos bateu na casa dos 72,18%, e esse patamar vale inclusive para os consoles e os jogos de celular. Uma ferramente muito bacana para consulta de incidencia tributária você encontra no site G1 “especial”, e pode conferir clicando aqui. Outra ferramenta de consulta direta é o próprio site do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, que divulga as pesquisas de incidência tributária e ainda ajuda a espalhar o conhecimento de a quantas anda o impostômetro. Vale a pena conferir clicando aqui. E se você quiser passar raiva diretamente, acesse o link direto para o impostômetro aqui.

Caso você um curioso e acabou olhando toda a lista de tributação, pode notar que as armas de fogo tem uma incidência tributária MENOR, EU DISSE MENOR (71,58%), do que os games. E isso tem uma justificativa simples: com a antipirataria desenvolvida pelas empresas e com a dificuldade cada vez maior de se hackear os sistemas dos consoles e “enganar” as empresas, o Governo viu um excelente filão de lucro, já que todos que detém os poderosos consoles, ainda mais os da nova geração, acabam cedendo e pagando o preço porque não existe “concorrência” e muito menos opção, por assim dizer. Ao contrário do que acontece com a industria voltada ao desenvolvimento e vendas de games para PC’s, que acharam na competição de valores uma forma muito boa de evitar a pirataria.

A tributação “bico fechado” fica mais simples, e mesmo que os consumidores estrilem, não deixarão de consumir. Embora cada vez mais o gamer brasileiro tenha recorrido as mídias digitais, fato é que o e-commerce também é alvo da tributação alta ainda mais com as novas regras tributárias (trataremos sobre isso em outra oportunidade). Hoje o atual cenário de tributação é composto pelas seguintes facadas:

  • Imposto de Importação (você paga quando entra)
  • Imposto sobre Produtos Industrializados (você paga porque ele foi industrializado -feito)
  • PIS/Cofins (porque todo mundo paga para “””ajudar””” a manter o serviço social no País)
  • Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (que vai aumentar, pode ficar tranquilo. E como o produto sai da empresa para ir até você ele também paga. Lembrando que o ICMS incide em todas as vezes de comercialização do produto. Então você está pagando mais de uma vez…)

Isso justifica inclusive o aumento absurdo na busca de títulos usados, principalmente, da nova geração. A procura é tão grande que várias lojas evitam negociar a compra de usados na frente dos demais clientes, porque muitas vezes os próprios jogadores negociam antes e a loja perde a oportunidade.

O Brasil é um dos países que mais arrecada impostos no mundo e não faz questão nenhuma de esconder isso. Até parece que se orgulha. No entanto essa sede pelo nosso dinheiro mata o desenvolvimento ou melhor, o subdesenvolvimento da industria nacional de produção de consoles, desenvolvimento de games e aprimoramento de tecnologias associadas a este ramo.

Basta passarmos o olho pelo pé no freio posto na intenção da gigante e popular Nintendo na venda de jogos no Brasil. “O Brasil é um mercado importante para a Nintendo e lar de muitos fãs apaixonados mas, infelizmente, desafios no ambiente local de negócios fizeram nosso modelo de distribuição atual no país insustentável”, disse Bill van Zyll, Diretor e Gerente Geral para América Latina da Nintendo of America. “Estes desafios incluem as altas tarifas sobre importação que se aplicam ao nosso setor e a nossa decisão de não ter uma operação de fabricação local. Trabalhando junto com a Juegos de Video Latinoamérica, iremos monitorar a evolução do ambiente de negócios e avaliar a melhor maneira de servir nossos fãs brasileiros no futuro”, continua.

Ou seja, em outras palavras, a Nintendo sabe muito bem que o mercado Brasileiro é sorrateiro e vil e não pode e nem deve ser complacente com o Governo e a política tributária brasileira. Se chances existiram de trazer fama para o Brasil e orgulho de produzir e desenvolver, além de vender aqui, se não acabaram, reduziram muito.

Atribuir apenas à empresa distribuidora ou desenvolvedora do game a culpa pelo alto preço é injusto. Tudo bem que parte do preço é empurrado por elas, mas convenhamos que se formos levar a séria a afirmação, o valor real de venda seria, minimamente, 50% mais barato do que pagamos hoje num jogo eletrônico.

Isso justifica o porque da frustração em ver um titulo recém lançado para PS4, por exemplo, nos EUA: lá provavelmente o valor de tabela começa muitas vezes em US$40 variando os mais caros (muitas vezes as golden edition), até US$60-70 a depender da procura do título e fama do estúdio e da série. E aqui não vamos entrar na discussão da conversão em real simplesmente porque estamos analisando o valor real de venda dos jogos. Isso em termos americanos é relativamente acessível, mais que aqui no Brasil. Sem contar que o mercado de usados você encontra fácil preços que variam de US$2 até US$40 nas edições limitadas ou packs. E isso encontra respaldo no fomento da circulação de mercadorias e incentivo de capital para as distribuidoras e revendedoras, já que o esquema tributário deles é infinitamente diferente do nosso que conta com “tri-tributação” inclusive na venda de usados.

O comercio eletrônico, principalmente de jogos, já vem numa toada ascendente há muitos anos. Nada melhor que aproveitar o nicho de mercado e pegar carona para desenvolver produtoras nacionais, fomentar o investimento externo aqui e dar força até mesmo para as revendas. ERRADO. Não é assim que a banda toca aqui: queremos que você compre, mas para isso, você nos dará sua alma (assinado: Governo Brasileiro s2).

Eu quero seu dinheiro, e sua alma também - Tio San versão BRHUE
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